EDITORIAL
O NÚMERO DOS QUE SE SALVAM

Quero iniciar esta nossa reflexão
apresentando o versículo quarto do capítulo sete do Apocalipse de São João.
“Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro
mil de todas as tribos do povo de Israel”. Já os apóstolos propuseram a Jesus:
“Senhor, serão poucos os que se salvam”? (Lc 12,23). A questão do número dos
que se salvam recebeu soluções múltiplas na Tradição cristã. A primeira solução
foi de tendência rigorista e o argumento da malícia parecia corroborar por
alguns textos da Sagrada Escritura. Tomando o evangelho de Mateus 22,14 vemos:
“Com efeito, muitos dos”. No entanto, “muitos” e “poucos” não designam duas
quantidades consideradas em si mesmas, mas dois grupos que, confrontados um com
o outro, deveriam ser dito “a parte maior” e “a parte menor”. Quem são esses
chamados? Quem são os escolhidos? Conforme o texto são os que receberam a
vocação à fé cristã e vivem na Igreja. Não podemos interpretar o texto de
Mateus como se fosse grande o número dos que se perdem, mas que possivelmente
não se salvam àqueles que, recebendo os pré-requisitos para a salvação, vivem
como se não tivessem recebido. Em outra passagem de Mateus lemos: “Entrai pela
porta estreita; pois larga é a porta e espaçosa é a via que conduz à perdição,
e numerosos são os que por aí passam. Com efeito, estreita é a porta e restrita
é a via que leva à vida, e poucos são os que a encontram” (Mt 7,13s). Nesta
passagem Jesus verifica um fato inegável: poucos são os que se impõe uma séria
disciplina moral e religiosa; ao contrário, numerosos são os que escolhem
prazeres desenfreados, ou seja, a estrada larga. No entanto, o viandante errado
pode mudar de estrada antes da chegada; não podemos abstrair da misericórdia de
Deus, quando se considera o homem peregrino nesta terra; as tribulações tem
justamente a função de mostrar ao pecador o caráter ilusório dos bens terrenos
e incitá-los a mudar de caminho. A segunda solução é a que chamamos mais
benigna. Por que a mudança? Já com as grandes descobertas do séc. XVI tomava-se
conhecimento da existência de milhares e milhares de homens que viviam e
morriam na completa ignorância do cristianismo; dever-se-ia admitir que se
perderiam no inferno? Quão frustrado pareceria o sacrifício do Filho de Deus! O
abalo da opinião tradicional foi acentuado pela crise jansenista que criou
entre os católicos uma mentalidade excessivamente rigorista, mas que não
corresponde ao Espírito do Evangelho. Devemos pois admitir, como nos ensinou
José de São Bento (O.S.B. + 1723): “o número dos homens que se salvam é muito
grande, incalculável; ultrapassa os dos réprobos, graças à potência, à
sabedoria e à benevolência infinitas de Cristo, o qual certamente não sofreu e
derramou o seu sangue em vão, nem em vão ressuscitou e quebrantou o insolente
domínio de Satanás sobre a espécie humana”. Os argumentos em prol da sentença
benigna podem ser assim resumidos: A honra de Deus; O sucesso da Redenção; A
glória de Cristo; A bondade e a misericórdia de Deus – pedem que a maior parte
do gênero humano não sofra a condenação eterna. Deus, em sua sabedoria, houve
por bem não remover a ignorância do homem sobre o assunto. E, o silêncio no
caso, é para nós, autêntico e benéfico. A segurança, dada por Deus, de que o
maior número se salva, teria sido, talvez, um fomento da lei do menor esforço,
uma ocasião de langor espiritual. Quantos repousariam sobre essa quase certeza
da salvação como que sobre um travesseiro mole, o que seria nocivo tanto ao seu
progresso espiritual quanto à santidade da Igreja e a glória de Deus! Doutro
lado, a revelação de que a maioria se perde acarretaria desprezo e revolta;
seria igualmente um freio ao zelo pela salvação. Os documentos do Magistério da
Igreja conservam o que nós conhecemos com o nome de “silêncio de Deus”, donde a
exortação do Senhor é válida para todos: “Esforçai-vos por entrar pela porta
estreita” (Lc 13,24a).
Pe. Júlio César Souza de Jesus - Pároco
Pastoral da Comunicação - Pascom
Uma Pastoral Missionária a Serviço da Evangelização