A
MÃE DE DEUS E A DEVOÇÃO POPULAR
Em
que consiste a devoção à Virgem Maria? Muitos são os teólogos que tem tratado
do tema da religiosidade popular depois dos anos 70[1].
Hoje se observa um despertar da religião ou da relação com o transcendente,
testemunhando um retorno à religião ocultista, isto é, à meditação oriental, à
procura de significado global do humanismo e a persistência da religião ou da
piedade popular.
Mas
queremos aqui tratar especificamente da fé na Virgem Maria, que deve ser entendida à luz da encarnação do Verbo de
Deus. Neste sentido, Jesus Cristo aparece como o fim último de toda devoção
popular acerca dos merecimentos de Maria. A devoção à Mãe de Deus não pode
esquecer que Jesus é o nosso salvador. Somente em Cristo reside a plenitude de
toda divindade e graça. Ele é a cabeça da Igreja, da qual somos os seus membros
e fora de Jesus não existe outro, seja no céu ou na terra, no qual encontramos
a salvação.
Somente
partindo da pessoa de Cristo é que podemos estabelecer um verdadeiro culto
devocional à Maria, pois se esta devoção nos afastasse de Cristo, seria uma
ilusão diabólica e totalmente falsa. O povo tem a devoção de guardar o rosário,
o escapulário, a coroa e etc. Este símbolos devocionais, de fato, não são
necessários para a salvação. Mas, resta a pergunta: Esses sinais, embora não
necessários, impedem a salvação? Impedem a devoção à Cristo? Separam o povo do
amor de Cristo? Ou manifestam confiança no sentimento de estima, respeito e
consideração que os cristãos possuem para com a Mãe de Jesus e a partir do
quais passa a glorificar e com maior empenho seguir, imitar e servir o Filho de
Deus?
O
povo devoto de Maria é totalmente convicto que somente Jesus merece toda glória
e louvor, de maneira muito simples faz a distinção entre as graças que provêm
de Cristo, os dons do Espírito Santo e os méritos da Virgem Imaculada. Sabe que
ela voluntariamente se proclamou serva e escrava de Deus e que Jesus disse que
um servo não é maior que o seu Senhor[2].
Que Maria é serva amorosa e colaborou de modo inaudito com a entrada de Cristo
no mundo e que Maria participa por obra da graça divina no mistério da
Salvação. Se de um lado Maria foi o veículo através do qual Nosso Senhor
visitou o seu povo, por outro ela continua sendo o mesmo veículo que levará
esse povo a Cristo. O povo cristão tem consciência que a devoção verdadeira à
Maria é aquela que dedica maior gloria ao Senhor e mais colabora para sua
santificação.
A
verdadeira piedade popular supera uma devoção escrupulosa ou meramente externa.
A primeira teme desonrar o Filho por homenagear a Mãe, abaixar um elevando
outro, abre margens para uma fé insegura, não amadurecida, presa pelo medo de
praticar alguma injustiça (o povo sabe que seria grande ofensa querer superar
ou ao menos igualar a pessoa de Maria em relação ao Filho Jesus). Por isso, a
mais perfeita jaculatória em honra de Maria é aquela extraída do evangelho de
Lucas: “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre[3]”).
Uma fé escrupulosa corre o sério risco de colocar em ridículo a prática da
religião, algo semelhante ao temor de São Paulo antes da conversão[4]. A
segunda faz consistir toda sua devoção à Maria somente em práticas externas,
sem conteúdo ou interioridade, não crê no que pratica porque ignora a fé.
A
verdadeira piedade supera a devoção presunçosa, inconstante e hipócrita. Todas
essas, totalmente desligadas da prática de justiça, da solidariedade e do bem
social. A verdadeira piedade é tenra, interior, santa, constante e
desinteressada[5].
Manifestada como sinal de esperança e anúncio profético, supera as
manifestações periféricas e o intelectualismo, está para além do plano
meramente racional e ao mesmo tempo o folclórico. Querer barrar a piedade
popular em torno de Maria, seria o mesmo que paralisar mortalmente o espírito
humano[6].
Segundo H. Cox Maria é viva no povo. “Ser um teólogo radical hoje deve querer
dizer, ao menos, escutar o canto e o soluçar das religiões dos povos”.
Precisamos
insistir numa catequese que eduque a comunidade cristã ao confronto permanente
com a Palavra de Deus, que possa julgar as várias expressões do pensamento e a
vida dos crentes conciliadas com as mensagens do Magistério da Igreja. A
autêntica devoção mariana depende em grande parte da aceitação de tais
direcionamentos que vêem e rendem o mais vivo e o maior sentido ao vínculo que
nos une à Mãe de Cristo e nossa Mãe, na comunhão dos santos[7].
Alguns
pontos importantes a serem observados com relação à piedade popular em torno de
Maria na vida das comunidades:
1º
Aceitar a piedade popular; reconhecida como legítima na Igreja, encarnada na
história do catolicismo, patrimônio popular, junto com uma real obra de
evangelização.
2º
Priorizar a comunhão; uma atitude de respeito, que implique escuta do povo e
que conduza à valorização das instruções da Igreja sobre Maria que porta uma
adesão à verdade que parte da fé como pessoa viva, glorificada e dotada de
bondade materna.
3º
Favorecer o encontro entre: piedade popular e liturgia; recuperando o sentido
da festa, da comunidade e da participação cordial.
4º
Evangelizar a piedade Mariana do povo; de maneira que seja uma autêntica
piedade, tirando toda tentação de fechamento e colocando Maria no lugar mesmo que
lhe compete.
5º Coligar a piedade Mariana ao mistério
da páscoa e da vida; conservando a mesa da comunhão e da eucaristia, fonte e
ápice de toda vida da Igreja.
Um santo e feliz mês mariano a todos.
Pe. Júlio César Souza de Jesus.
[1]
Cf.: Estefano De Fiores: Maria nella teologia contemporanea, Roma 1991 pág. 339
[2]
Cf.: Mateus 10,24: “O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do
seu senhor.”
[3]
Lucas 1, 42: “Com um grande grito exclamou: Bendita és tú entre as mulheres e
bendito é o fruto de teu ventre.”
[4]
Atos do apóstolos 22,3: “Eu sou judeu. Nasci em Tarso, da Cicília, mas criei-me
nesta cidade, educado aos pés de Gamaliel na observância exata da lei de nossos
pais, cheio de zelo por Deus, como vós todos no dia de hoje.”
[5]
Trattato della vera devozione a Maria Vergine, Beato Luigi M. Montfort, Roma
1943
[6]
Maria Madre della Redenzione, E. Schillebeeckx, Paulinas 1965 p. 149
