quinta-feira, 11 de junho de 2015

EDITORIAL - O ESPÍRITO SANTO E OS PRIMÓRDIOS DE NOSSA FÉ




O ESPÍRITO SANTO E OS PRIMÓRDIOS DE NOSSA FÉ


No ano 325[1] o Concílio de Nicéia condenou o erro pelo qual alguns diziam que o Espírito Santo havia sido feito mediante o Filho. Condenou os Eunomianos ou Anomei, os Arianos, os Eudossianos, os Semi-arianos, Pneumatomacos, Sabelianos, Marcelinianos, Fontinianos e os Apolinaristas. Todos aqueles que não proclamam abertamente que o Espírito Santo é com o Pai e o Filho uma única potestade e substância; os que seguindo o erro de Sabélio, dizem que o Pai é o mesmo que o Filho; Condenou Ário e Eunômio que proclamaram igual impiedade e por falar também de dessemelhança sugeriram que o Filho e o Espírito Santo fossem criaturas. Considerou anátema os macedonianos, estes provenientes da estirpe de Ário, não mudaram a perfídia mas somente o nome. Condenou Fotino que renovou a heresia de Ebion e que confessava que o Senhor Jesus provém somente de Maria. Condenou os que inserem dois filhos, ou seja, um antes dos séculos e outro após a assunção da carne da Virgem Maria[2].
O Concílio condenou também aqueles que não dizem que o Espírito Santo, como o Filho, é verdadeiramente e propriamente do Pai, da divina substância e que é verdadeiro Deus. Condenou os que dizem ser o Espírito Santo uma criatura ou feito através do Filho, que dizem que o Pai não criou tudo, ou seja, as coisas visíveis e invisíveis, pelo Filho e o Espírito Santo. Quem não acredita que única é a divindade, a potestade, a majestade, a potência, a glória, o domínio, único Reino e única a vontade da verdade do Pai e do Filho e do Espírito Santo[3].
De acordo com Agostinho de Hipona, não devemos pensar que na Trindade possa existir distância de tempo ou espaço, no entanto devemos acreditar que as três pessoas são iguais, co-eternas em uma única natureza. Não devemos pensar que do Pai foi feita uma criatura, pelo Filho outra e uma outra agora por meio do Espírito Santo, mas que todas as coisas singularmente criadas existem em virtude da Trindade que as cria[4].
A Escritura Sagrada afirma muitas coisas sobre as singulares pessoas separadamente, mas isso acontece de maneira pedagógica, isto é, para que possamos entender que a Trindade é indivisível e inseparável[5]. Santo Agostinho, para referir-se à Trindade, utiliza-se de três faculdades fundamentais e inseparáveis: Memória, Inteligência e Vontade. Quando tomamos separadamente cada uma dessas faculdades uma não pode ser entendida sem as outras, porém essa similitude que faz Santo Agostinho em referência a Trindade não é de todo suficiente para expressar a grandeza do mistério do qual tratamos porque como afirma o concílio Lateranense IV existe entre o Criador e a Criatura uma dessemelhança maior que a semelhança[6].
Não podemos pensar que a Trindade seja co-natural a Deus. Mas Deus é a Trindade[7]. Toda ação divina é Trinitária em vista da inseparabilidade das pessoas, seja na criação, nas teofanias do Antigo e do Novo Testamento, na concepção de Jesus no seio de Maria, na voz do Pai sobre o Tabor, na manifestação corpórea de Pomba no batismo de Jesus ou nas línguas de fogo no dia de pentecostes[8]. Santo Agostinho afirma a inseparabilidade Trinitária e ao mesmo tempo apresenta o Pai como único princípio, como um só criador. E a Igreja Católica, afirma o Pai e o Filho como princípio único do Espírito Santo.
Se aquele que gerou é princípio do gerado, o Pai é princípio em referência ao Filho porque o gerou. Entretanto não é uma investigação de pouca importância inquirir se o Pai é também princípio em relação ao Espírito Santo, pois está escrito: procede do Pai. Se assim for, é princípio não somente do que gerou (Filho), mas também do que ele dá (Espírito Santo)[9].
Com isso elimina a possibilidade de se chamar o Espírito Santo de Filho, visto que ele procede do Pai não por geração, mas por inspiração. A esse respeito nos diz:
O que nasceu do Pai, diz relação ao Pai, como o Filho, por isso é dito Filho do Pai, não nosso. Por outro lado, o que foi dado, diz relação a quem deu e ainda a quem foi dado. Assim se diz do Espírito Santo. Não é somente do Pai e do Filho, mas também nosso, visto que o recebemos[10].
A ninguém deve impressionar o fato que o Espírito Santo seja co-eterno ao Pai e ao Filho e concomitantemente ser dito algo relativo sobre ele, como por exemplo, que nos foi dado no tempo. O Espírito Santo é Dom na eternidade, mas como doação ele o é no tempo[11]. Ele é o Dom do Pai e do Filho e do Filho ao Pai, ou seja: “Sempiterne Spiritus Donum, Temporaliter autem donatum”.







Pe. Júlio César Souza de Jesus
Professor do ICESPI




[1] Aqueles pois que dizem: “Houve (um tempo) em que ele não era” e “Antes que nacesse não era” ou dizem que Deus seja de outra substância ou essência ou seja transformável ou mudável, a estes a Igreja católica considera anátema. Cf. DS 126.
[2] Cf. DS 153-177.
[3] Cf. DS 153-177.
[4] Cf. Agostinho, Lettera 169,5.
[5] Cf. Agostinho, Lettera 169,5.
[6] “Porque entre o Criador e a criatura por grande que seja a semelhança, maior é a diferença” Cf. DS 806.
[7] Cf. Agostinho, Lettera 169,6.
[8] Cf. Agostinho, Doutrina Teológica 4,4.
[9] Cf. Agostinho, Trin V 14,15.
[10] Cf. Agostinho, Trin V 14, 5.
[11] Cf. AGOSTINHO, Trin V 16, 17.



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Uma Pastoral Missionária a Serviço da Evangelização