O ESPÍRITO SANTO E OS PRIMÓRDIOS DE NOSSA FÉ
No ano 325[1]
o Concílio de Nicéia condenou o erro pelo qual alguns diziam que o Espírito
Santo havia sido feito mediante o Filho. Condenou os Eunomianos ou Anomei, os
Arianos, os Eudossianos, os Semi-arianos, Pneumatomacos, Sabelianos,
Marcelinianos, Fontinianos e os Apolinaristas. Todos aqueles que não proclamam
abertamente que o Espírito Santo é com o Pai e o Filho uma única potestade e
substância; os que seguindo o erro de Sabélio, dizem que o Pai é o mesmo que o
Filho; Condenou Ário e Eunômio que proclamaram igual impiedade e por falar
também de dessemelhança sugeriram que o Filho e o Espírito Santo fossem
criaturas. Considerou anátema os macedonianos, estes provenientes da estirpe de
Ário, não mudaram a perfídia mas somente o nome. Condenou Fotino que renovou a
heresia de Ebion e que confessava que o Senhor Jesus provém somente de Maria.
Condenou os que inserem dois filhos, ou seja, um antes dos séculos e outro após
a assunção da carne da Virgem Maria[2].
O Concílio condenou também aqueles que não dizem que o
Espírito Santo, como o Filho, é verdadeiramente e propriamente do Pai, da
divina substância e que é verdadeiro Deus. Condenou os que dizem ser o Espírito
Santo uma criatura ou feito através do Filho, que dizem que o Pai não criou
tudo, ou seja, as coisas visíveis e invisíveis, pelo Filho e o Espírito Santo.
Quem não acredita que única é a divindade, a potestade, a majestade, a
potência, a glória, o domínio, único Reino e única a vontade da verdade do Pai e
do Filho e do Espírito Santo[3].
De acordo com Agostinho de Hipona, não devemos pensar que na
Trindade possa existir distância de tempo ou espaço, no entanto devemos
acreditar que as três pessoas são iguais, co-eternas em uma única natureza. Não
devemos pensar que do Pai foi feita uma criatura, pelo Filho outra e uma outra
agora por meio do Espírito Santo, mas que todas as coisas singularmente criadas
existem em virtude da Trindade que as cria[4].
A Escritura Sagrada afirma muitas coisas sobre as singulares
pessoas separadamente, mas isso acontece de maneira pedagógica, isto é, para
que possamos entender que a Trindade é indivisível e inseparável[5]. Santo Agostinho,
para referir-se à Trindade, utiliza-se de três faculdades fundamentais e
inseparáveis: Memória, Inteligência e Vontade. Quando tomamos separadamente
cada uma dessas faculdades uma não pode ser entendida sem as outras, porém essa
similitude que faz Santo Agostinho em referência a Trindade não é de todo
suficiente para expressar a grandeza do mistério do qual tratamos porque como
afirma o concílio Lateranense IV existe entre o Criador e a Criatura uma
dessemelhança maior que a semelhança[6].
Não podemos pensar que a Trindade seja co-natural a Deus. Mas
Deus é a Trindade[7]. Toda ação divina é
Trinitária em vista da inseparabilidade das pessoas, seja na criação, nas
teofanias do Antigo e do Novo Testamento, na concepção de Jesus no seio de
Maria, na voz do Pai sobre o Tabor, na manifestação corpórea de Pomba no
batismo de Jesus ou nas línguas de fogo no dia de pentecostes[8]. Santo Agostinho
afirma a inseparabilidade Trinitária e ao mesmo tempo apresenta o Pai como
único princípio, como um só criador. E a Igreja Católica, afirma o Pai e o
Filho como princípio único do Espírito Santo.
Se
aquele que gerou é princípio do gerado, o Pai é princípio em referência ao
Filho porque o gerou. Entretanto não é uma investigação de pouca importância
inquirir se o Pai é também princípio em relação ao Espírito Santo, pois está
escrito: procede do Pai. Se assim for, é princípio não somente do que gerou
(Filho), mas também do que ele dá (Espírito Santo)[9].
Com isso elimina a possibilidade de se chamar o Espírito Santo
de Filho, visto que ele procede do Pai não por geração, mas por inspiração. A
esse respeito nos diz:
O
que nasceu do Pai, diz relação ao Pai, como o Filho, por isso é dito Filho do
Pai, não nosso. Por outro lado, o que foi dado, diz relação a quem deu e ainda
a quem foi dado. Assim se diz do Espírito Santo. Não é somente do Pai e do
Filho, mas também nosso, visto que o recebemos[10].
A ninguém deve impressionar o fato que o
Espírito Santo seja co-eterno ao Pai e ao Filho e concomitantemente ser dito
algo relativo sobre ele, como por exemplo, que nos foi dado no tempo. O
Espírito Santo é Dom na eternidade, mas como doação ele o é no tempo[11]. Ele é o Dom do
Pai e do Filho e do Filho ao Pai, ou seja: “Sempiterne
Spiritus Donum, Temporaliter autem donatum”.
Pe. Júlio César Souza de Jesus
Professor do ICESPI
[1] Aqueles
pois que dizem: “Houve (um tempo) em que ele não era” e “Antes que nacesse não
era” ou dizem que Deus seja de outra substância ou essência ou seja
transformável ou mudável, a estes a Igreja católica considera anátema. Cf. DS
126.
[2] Cf. DS 153-177.
[3] Cf. DS
153-177.
[6] “Porque
entre o Criador e a criatura por grande que seja a semelhança, maior é a
diferença” Cf. DS 806.
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Uma Pastoral Missionária a Serviço da Evangelização
